Melancias

Assumi profissionalmente a conduta de um músico compositor. Embora, sinceramente, eu julgue essa denominação pretensiosa.  Mas tudo bem. Isso encurta as apresentações.


Nunca me dediquei muito a interpretações. Especialmente, porque a maioria das obras que gosto não me encorajam a transformá-las. Julgo absolutas. O outro lado é verdade: se é lindo dá vontade de tocar, envolver-se, arranjar, gravar, noticiar – participar daquela beleza em algum nível.

Ao contrário do que parece, ser um compositor estabelece um vínculo muito mais profundo com os outros compositores. O artista inovador que se busca ser começa a sua formação nas obras de outros. O estudo torna-se ainda mais amplo, mais profundo e muitas vezes indecifrável. Para entender Villa-Lobos, por exemplo, é necessário conhecer Debussy, Chopin e Bach. Para os violonistas especialmente, é essencial conhecer e tocar a obra de João Pernambuco (João Teixeira Guimarães). Sugiro ouvir a música Sonho de Magia, de João Pernambuco, e compará-la com o Prelúdio 5 para violão, de Villa-Lobos. Não é coincidência. Nessa escuta comparativa, encontraremos um Heitor Villa-Lobos  estudando as raízes do violão solo brasileiro. 

Antônio Carlos Jobim fez exatamente a mesma coisa. Foi um dedicado estudante de Villa-Lobos, Debussy, Aníbal Augusto Sardinha (Garoto) e Ravel.

Mas aquilo que me serviria de base de estudo, ao longo do tempo revelou-se uma barreira intransponível. Encontrar-me com minhas referências de estudo deslocou o meu olhar para mim mesmo. Eu jamais comporia com a beleza de Bach, ou com a engenharia de Mozart, com a relevância propositiva de Deboussy e Stravinsky, ou com a genialidade  das obras cheias de personalidade, inteligentes e universais de Tom e Villa.

 

A comparação é inapropriada. Impossível, na verdade.

Após essa jornada de estudos, buscas e presunções, vem a maturação de um estudante. Mais do que isso -  de um estudante que ama a música de tal forma que se contenta em conviver com as suas próprias composições. Nada além de uma boa música e uma normalidade inquieta. E tá tudo bem assim.

Hoje eu vejo que essa é a minha oferta a mim mesmo. Ofereço a mim o ser que sou. O compositor que sou. Encontrei nisso a solução mais serena (na verdade, a única que consegui).

Tenho alguns trabalhos em andamento há alguns anos. Dois deles têm nomes:
1 - Ninguém Diz Tudo /  2 - Eu Queria Ser Ralph Towner

O nome do primeiro, que, aliás, adoro por ser perfeito para um trabalho instrumental, também revela que não posso sucumbir à ansiedade de revelar muito. Para dizer algumas coisas é necessário não dizer outras.
Sobre Ralph Towner, é a afirmação do músico que eu gostaria de ser. Uma confissão boba e desnecessária. Afinal, só eu me importo com isso. 

No final dessa viagem - depois da angústia criada pela imaturidade - quem estava me aguardando na estação era a própria música. Sempre acolhedora. Sempre inexplicável. Sempre arte.

E, assim, o cavalo anda e as melancias se acomodam na carroça. Nada importa quando a gente ama música, senão a própria música em sua condição indecifrável. Não há público, profissão ou turnê que sejam maiores.

Hoje eu começo a entender o poeta Manoel de Barros. Ele “me” disse um dia:

“... O que é importante vira ciência. O que não é vira poesia.”

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